Já era tarde da noite e eu acordara por conta de um punhado de pingos de orvalho que me haviam sido espirrados na face pelo vento, Eorst e eu havíamos parado para repousar na descida de um morro em campina que se encontrava com um vasto bosque de pinheiros coroado por uma majestosa lua cheia.
Meu discípulo tinha os olhos perdidos na dança da aurora.
-Ainda não conseguiu dormir?
-Não sei o que devo fazer, mestre. Não sei o que é certo. Vim procurar respostas com a aurora...
-E o que vê?
-Um emaranhado de cores e serpentinas dançantes... Talvez uma ou duas vozes, mas todas conflituosas.
Aquela era uma noite particularmente magnífica! O céu estava totalmente limpo com estrelas de todas as cores, era possível ver as nebulosas em suas formas espetaculares e a própria lua cheia parecia acasalar com a aurora que cobria o céu.
-Estive analisando as jóias, mestre.
-E o que constatou?
-Descartei algumas ao longo do caminho por serem gemas vazias, me sobraram duas. Uma delas é lindíssima! Alva com dois filetes azuis cascateando as bordas que me enchem os olhos! - Disse Eorst, mostrando a referida gema.
-Realmente, ela é linda! - Concordei com ele.
-Mas um olhar cauteloso mostrou um pequenino trinco no interior. Para tê-la como pingente eu arriscaria um desastre...
-Muito bem! A jóia seria danificada e as lascas lhe esfaqueariam. Muito bem observado! Fico feliz que tenha crescido! E a outra jóia?
-Bem, esta...
-Sim? - Indaguei com um olhar de curiosidade encorajadora.
Eorst mostrou uma pedra também alva, mas que emitia um brilho púrpura e era macia e convidativa ao toque.
-Esta é bastante especial... - Disse meu pupilo com um olhar que parecia imerso em dor, dúvida e culpa.
-O que sua análise revelou? - Indaguei.
-Ela é poderosa, quando lhe dirijo o olhar vejo a mim mesmo, meus olhos, o fundo da minha alma... Meus sonhos mais inconsequentes... E ela é pegajosa, veja!
A pedra parecia magnetizar os pelos brancos de Eorst. O que fez com que eu dirigisse um olhar espantado à pedra.
-Tome cuidado! -Alertei Eorst.
-Mas mestre-
-Nenhum de nós é o salvador do mundo, pare de pensar que é! Vai se machucar e vai machucar quem tentar salvar dessa maneira inconsequente! UM UMA! Lembre-se bem disso!
Eorst olhava cabisbaixo a relva que dançava aos caprichos do vento.
-Eu compreendo o que sente, mas você não deve querer dar mais passos do que tem de pernas: vai tropeçar e vai derrubar quem estiver carregando junto com você, e a culpa será sua pela atitude inconsequente! E, por que não dizer, egoísta!
-Bem, é apenas uma. - Retrucou Eorst.
-E você vê a si mesmo... Você já tem a si próprio, precisa do que não tem!
-Mas descartá-la seria cruel...
-Os caminhos mais fáceis costumam ser!
Eorst teve dificuldades em guardar a jóia de volta na bolsa, o fez ao custo de alguns pêlos arrancados.
-Essa realmente deixou uma marca a mais! - Disse em tom zombeteiro com um leve sorriso.
-O que fazer com você? - Disse Eorst, perdido com os olhos na gema.
-O amor incondicional - Continuou ele, agora olhando o horizonte - Poderoso e, ainda assim, delicado. É um instrumento para ser manejado pelo maior dos mestres. Requer sabedoria infinita!
Sorri com o progresso do meu discípulo e me aninhei próximo a ele e a fogueira que havíamos feito.
-Mas sabe - Continuou Eorst - estou feliz! É uma jóia realmente preciosa e parece ser uma companheira de viagens e tanto! - Disse e terminou com um bocejo.
-É uma noite maravilhosa - Disse eu - mas se não nos apressarmos em descansar perderemos um amanhecer igualmente belo! Quem sabe o que ele nos reserva? - Disse e fechei os olhos.
Rodolfo d'Lima
quarta-feira, 20 de março de 2013
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